O sistema de produção e suplementação dos bovinos de corte compreende as fases de cria: desde a cobertura da vaca até a fase de desmama, a fase da recria: entre as fases de desmama e criação, e por último a fase de terminação: fase de engorda. Com a adoção de técnicas de manejo nessas fases, é possível abater animais mais precoces, com maior qualidade para o mercado consumidor.

Fase da cria

A fase da cria da bovinocultura de corte corresponde aos bezerros e bezerras criados na propriedade, ás matrizes envolvendo vacas em reprodução e novilhas aptas a cobertura e aos reprodutores.

  • O produtor de cria deve ter recursos financeiros suficientes para a aplicação de tecnologias que garantam o desmame de um bezerro pesado e saudável por ano, de cada vaca do rebanho;
  • Em relação aos bezerros, a melhor época de parição das vacas é durante o período seco do ano, pois proporciona baixa incidência de doenças, como pneumonia, e de parasitos, como carrapatos, bernes, moscas e vermes.
  • A fase de cria assume grande importância econômica, já que ao final dela o animal pode chegar até 50% do seu peso final de abate, justamente por apresentar melhor conversão alimentar graças as elevadas taxas de crescimento.
  • Em condições brasileiras, com animais basicamente da raça nelore, o peso médio de nascimento é de 30kg e o desmame ocorre de 6 a 8 meses, com média de peso de 160 a 180kg.

Fase de recria

A fase de recria compreende o final da desmama até o momento em que o novilho é destinado a terminação. Nessa fase o peso é o principal fator que determina o seu término, com o animal de 300 a 400kg. Normalmente as fêmeas são destinadas a reprodução (matrizes) e os machos a produção (terminação).

A fase da cria é o ponto-chave para a antecipação da idade para o abate. Nela, o animal tem boa conversão alimentar e permite ganhos adicionais a baixo custo, já que a base da dieta é o pasto. Diante disso, o ponto forte para recria no Brasil é o manejo correto das pastagens.

Nesse sentido, uma pastagem de alta qualidade, e em quantidade suficiente, possibilita que o animal tenha maior aproveitamento dos nutrientes, altas taxas de crescimento e ganho de peso.

Fase de terminação

A fase de terminação tem o objetivo de fazer com que o animal atinja peso e carcaça adequados, agregando valor ao produto e ao trabalho desenvolvido na cria e recria.

Nessa etapa o ganho de peso diário e a conversão alimentar diminuem, visto que a composição de ganho do animal passa a ser constituída principalmente por tecido adiposo.

A terminação de bovinos pode ser o pasto ou em confinamento. No Brasil, ainda é predominante a terminação á pasto, com a pastagem como fonte de volumoso, sendo o concentrado fornecido no cocho.

Os confinamentos estão em franca expansão, com o número de bovinos confinados a cada ano. Nesse sistema, lotes de animais ficam em currais com área restrita, em que a água e os alimentos necessários são fornecidos em cochos.

Diferentemente da terminação á pasto, o confinamento exige maior investimento em instalações e maquinários. Em contrapartida, o controle do consumo pelos animais é mais eficiente, possibilitando ajustes na dieta com maiores ganhos e eficácia por animal e, consequentemente, carcaças mais acabadas e padronizadas para a comercialização.

Suplementação para bovinos

Na bovinocultura de corte brasileiro existe várias práticas nutricionais que devem ser escolhidas por produtores de acordo com o objetivo da propriedade, pois são muito variadas em função das condições de solo e clima do local onde a atividade é desenvolvida.

A suplementação tem como principal objetivo corrigir a deficiência de nutrientes na forragem ofertada, podendo potencializar o ganho de peso dos animais, a depender no nível de utilização.

Estratégia de suplementação

A produção de corte bovina no Brasil é predominante baseada em pastagens, o que reduz os ganhos dos animais devido as limitações da forragem. Por isso o uso da suplementação é uma alternativa que possibilita ganhos zootécnicos, gerando maior rentabilidade para o sistema.

Suplementação na fase da cria

No Brasil a cria é feita na maioria das vezes de forma extensiva e caracterizada por baixos índices produtivos. Uma alternativa para elevar o peso no desmame e diminuir a idade do abate é a utilização de suplementação adicional para bezerros em aleitamento, como por exemplo o chamado creep-feeding.

O creep-feeding consiste no fornecimento de concentrado suplementar aos bezerros, em cochos privativos, nos quais as vacas não tem acesso. Essa dieta deve conter elevado teor de energia e uma proteína de alto valor biológico: 75 a 80% de nitrogênio digestíveis totais e 16 a 21% de proteína bruta. Dessa forma recomenda-se fornecer entre 0,5 a 1,0% do peso vivo de concentrado/cabeça/dia.

Outra técnica, apesar de pouco utilizada no Brasil é creep-grazing, que consiste em cercar uma área para a formação de uma pastagem de alto valor nutritivo, dentro do pasto das vacas, onde apenas o bezerro tem acesso.

Em geral vale ressaltar, que o uso de suplementação na cria é vantajoso, desde que, nas fases posteriores, seja mantido o fornecimento de nutrientes para suprir as exigências dos animais, que provavelmente, serão maiores se comparadas ás dos animais que não receberam suplementação durante o aleitamento.

Suplementação na fase recria

A suplementação na fase de recria é importante já que nessa etapa, os animais passam por períodos de seca e de água.

A não suplementação nesse período produz o conhecido “boi sanfona”, que ganha peso no período das águas e o perde durante a seca, atrasando o tempo de abate.

No período da seca, a planta forrageira apresenta baixa taxa de índice de desenvolvimento e alta de senescência (morte), reduzindo a forragem ofertada aos animais. Nesse período, a forragem possui baixa proteína, alta proporção de fibra indigestível, reduzindo tanto o consumo quanto ao ganho de peso do animal.

O planejamento de suplementação durante a seca deve aumentar a massa de forragem e suprir as exigências do animal. É necessário que o acúmulo de forragem seja feito por meio da separação da pastagem. Consiste em selecionar um pasto entre 40 e 70 dias antes da seca, para que a forragem cresça e tenha quantidade suficiente para o animal.

Para suprir as exigências dos animais, podem ser utilizados suplementos proteicos de baixo consumo. Com esse tipo de suplementação, em geral se consegue ganhos de peso entre 300 e 350g por dia no período da seca.

Diferentemente, no período das águas, observa-se maior acúmulo de forragem com alto valor nutritivo, baixo teor de fibra indigestível e alta proteína, possibilitando assim, atingir a meta de desempenho somente com a suplementação mineral, associada ao bom manejo do pasto.

  • O uso de suplementos proteico-energético, ou energético pode propiciar aumento no ganho individual e/ou no ganho por área, por aumentar a taxa de lotação do pasto.
  • Desde que o pasto disponha de alto valor nutritivo, o preço gera o fator determinante para a escolha do tipo de suplemento a ser utilizado no período das águas.

Considerando-se um peso de desmame de 180kg e um peso inicial de confinamento de 360kg, é necessário obter 180kg de ganho de peso durante a recria. Se os animais no período de seca (180 dias), ganharem em torno de 300g/dia, no período das águas (180 dias) esse mesmo animal terá que obter 126 kg (700 g/dia). Essa suplementação pode ser feita com sal mineral adubado, ou com um suplemento energético de baixo consumo, a fim de aumentar o ganho de peso e permitir a entrada precoce desses animais na terminação.

Suplementação na fase terminação

A fase de terminação (engorda) de bovinos de corte no Brasil ainda é, predominantemente, realizada em pastagens. Portanto, para conseguir abater animais precoces, com bom acabamento e qualidade de carne, é necessário fazer a suplementação, se possível, durante toda a vida do animal.

A estratégia de suplementação a ser utilizada deve ser precedida da caracterização da quantidade e da qualidade da forragem disponível. Normalmente, esses animais receberão uma suplementação de 6 a 10 g/kg de peso vivo, a fim de obter altos ganhos de peso de até 1 kg/dia.

Principais ingredientes utilizados na alimentação do animal

Os componentes utilizados nas dietas dos bovinos de corte em confinamento são baseados em uma relação de volumoso e concentrado. Os principais volumosos são silagem de milho, silagem de cana-de-açúcar, cana-de-açúcar fresca picada e selagem de capim.

  • A escolha do volumoso que será produzido na propriedade, deve ser realizada com base na disponibilidade da área na propriedade, maquinário, mão de obra e recursos financeiros, pois geralmente é produzido na fazenda.
  • A disponibilidade de volumoso definirá o número de animais que o produtor poderá confinar.

Em relação aos concentrados, a escolha dos produtos a serem utilizados deve ser feita considerando a sua qualidade. É possível ainda, usar os alimentos alternativos (subprodutos), que apresentam viabilidade técnica e tenham custo favorável.

Milho

O milho é considerado um alimento concentrado energético padrão na alimentação de bovinos. É rico em amido e pobre em proteína. Pode ser usado de diversas formas, como fonte volumosa (silagem de milho), ou concentrado energético (grão inteiro e moído).

Soja

A forma de utilização mais comum da soja na alimentação animal, particularmente para bovinos de corte, é o farelo, podendo ser fornecida também nas formas de grãos e silagem.

O grão de soja é um alimento de alta concentração proteica e energética, apresentando em torno de 39% de proteína bruta e 19% de extrato etéreo. Já o farelo de soja é o produto resultante da extração do óleo dos grãos, considerado, portanto um alimento proteico e menos energético por apresentar em torno de 44% de proteína bruta e 1% de extrato etéreo.

Sorgo

O grão apresenta composição semelhante à do milho, com pouco menos de energia e pouco mais de proteína, que varia entre 9% e 13%, a depender da variedade. Deve ser fornecido triturado ou moído devido à baixa digestibilidade de grão inteiro.

Subprodutos utilizados na alimentação animal

É possível utilizar subprodutos na alimentação bovina, desde que seja economicamente viável. Portanto, recomenda-se procurar esses ingredientes na região próxima ao semi-confinamento.

Caroço de algodão

Subproduto da indústria têxtil, trata-se de um alimento rico em óleo, energia, proteína e fibra, podendo substituir alimentos volumosos sem prejudicar a fermentação ruminal, características que tornam o caroço de algodão extremamente interessante em rações com alto nível de concentrado.

O limite máximo de inclusão na dieta dos animais do confinamento está em torno de 15% da matéria seca total. Acima desse limite, o nível de extrato etéreo pode ultrapassar do ideal, reduzindo assim, a digestibilidade da fibra causando diarreia e redução no consumo.

Polpa cítrica

Segundo subproduto da indústria da laranja mais utilizada, é composta de cascas, sementes e bagaços. É considerado um concentrado energético com maior teor de fibra do que os tradicionais, atuando na manutenção da motilidade ruminal e no estimulo a ruminação.

É um alimento estratégico na nutrição animal, pois a safra da laranja é iniciada em maio e concluída em janeiro, período que coincide com a entressafra de grãos, como o milho e com a época de escassez de forragem.

Casquinha de soja

É obtida no processamento da extração do óleo do grão de soja, sendo considerada um alimento intermediário entre volumoso e concentrado, por apresentar alta energia e quantidade considerável de fibra. A energia fornecida pela casca de soja permite a substituição do milho na dieta, afim de baratear o custo de produção. É utilizada na alimentação de ruminantes por ter custo menor do que o farelo de soja.

Resíduo de cervejaria

É um subproduto na forma de resíduo úmido ou seco, com alto valor de proteína bruta em torno de 23% a 28%, que é absorvida no intestino.

Um fator limitante para a sua utilização é a falta de padrão no processo de fabricação entre as indústrias de cerveja, o que acaba por ocasionar variações na composição química devido a fonte de matéria-prima.

Alguma pesquisa tem demostrado que os resíduos de cervejaria podem substituir em até 100% o milho na dieta, sem prejuízo no ganho de peso dos animais.

Bagaço hidrolisado de cana-de-açúcar

O bagaço de cana-de-açúcar é utilizado em alimentação animal, embora apresente limitações quanto ao seu valor nutritivo. Para melhorar a composição química desse alimento, foram desenvolvidos tratamentos para aumentar a qualidade nutricional e a digestibilidade.

O bagaço da cana hidrolisado é oriundo de um tratamento com pressão e vapor, o que torna esse volumoso de médio valor nutritivo e com poder de estimular a mastigação e o funcionamento ruminal.